Uma Turma de Oficiais do Exército

Qual é a história de uma turma de oficiais do Exército? É uma história mais importante e rica do que se costuma imaginar, na medida em que seus integrantes são amostras do estrato social de uma época, absorvem os valores e práticas da instituição na qual ingressam e, ao longo de suas carreiras, levam consigo essas marcas características de suas origens, formação e mentalidades.
Nas últimas décadas do século XX surgiram trabalhos acadêmicos de cunho sociológico dedicados à formação na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) dos oficiais de carreira combatentes do Exército brasileiro. Todos, particularmente os mais conhecidos, optaram pelo viés ideológico, mais interessados na crítica política do que no estudo sério de como os cadetes viviam, no que acreditavam, o que esperavam e como se preparavam para a vida profissional.
Este artigo tem por objetivo destacar aspectos peculiares da formação de uma turma de oficiais do Exército na AMAN, com a finalidade de estimular e subsidiar trabalhos futuros que se valham das riquíssimas fontes humanas que são os registros e os depoimentos de integrantes das turmas de formação da AMAN para promover estudos consistentes sobre os oficiais do Exército brasileiro, a exemplo do que Morris Janowitz fez em “O Soldado Profissional”.
Estudos de qualidade nessa área podem contribuir significativamente para a compreensão pela sociedade civil, e muito particularmente pelas suas elites, das características da profissão militar no Brasil, o pilar central de todo aparato de defesa do País.
Este é um artigo de História, a história da formação da turma de Artilharia de 1975 na AMAN, comemorativo do 50º aniversário da sua declaração de Aspirantes-a-Oficial, em 12 de dezembro daquele ano, e do início da carreira dos seus integrantes nos corpos de tropa, em fevereiro de 1976. Além de servir de estímulo para trabalhos acadêmicos, o artigo também pode ser útil a chefes e líderes militares na elaboração de estratégias de ensino e formação das turmas de oficiais do Exército, cujo core de profissionalismo e valores é constituído na Academia Militar e as acompanha por toda a carreira.
A turma de Artilharia de 1975 é recordista de promoção a General-de-Brigada (2005-2006). Não obstante ser uma turma comparativamente pequena, dois de seus integrantes chegaram ao posto de General-de-Exército, sendo um deles eleito vice-presidente da República (2019-2022). Ela foi veículo de evolução tática e técnica da Arma e de modernização da instrução, com a adoção dos programas-padrão de instrução e a definitiva profissionalização do Exército como força combatente nos anos 70 e 80. Muito do que essa turma foi e fez no contexto do esforço institucional de modernização do Exército se deveu, sem dúvida, ao seu processo de formação na Academia Militar entre 1972 e 1975.
O que é uma turma de oficiais do Exército formada na AMAN? Com todo o respeito e consideração que as demais categorias profissionais merecem, as turmas de oficiais do Exército têm características que as tornam únicas, universal e singularmente.
A primeira delas é a representação nacional. Independente do processo de admissão dos novos cadetes ao longo dos anos, as turmas têm representantes de quase todas, se não todas, unidades federativas e regiões do País. Se muitos não conhecem outras partes do Brasil, na AMAN vão começar a conhecê-lo pela convivência com hábitos, gírias, sotaques, sabores, cores e estórias de seus companheiros de profissão.
A segunda é a convivência em seguidos anos de internato sob intensa atividade, não apenas escolar mas também profissional, submetidos os cadetes a duros exercícios em campanha, serviço de escala, longas formaturas, provas físicas e testes de coragem física e moral, resultando em companheirismo, camaradagem e espírito de luta.
Uma terceira característica é a continuidade dessa relação entre os integrantes de uma turma, mesmo separados nas diversas unidades de tropa onde vão servir depois de formados, sendo eles promovidos e convocados para o Curso de Aperfeiçoamento dentro das respectivas turmas, em uma relação que ultrapassa a carreira para durar toda a vida.
A turma de oficiais do Exército funciona como uma categorização e uma comunidade dentro da carreira, distinguindo-se, portanto, das turmas de formandos da vida civil. No entanto, cada turma de oficiais se singulariza pelos seus integrantes, os instrutores que os formam, as experiências vividas e a conjuntura da época. Esses e outros fatores fazem com que cada turma seja única, tanto na visão de seus integrantes, como na dos integrantes de outras turmas.
A formação e evolução na carreira das turmas de oficiais combatentes proporciona ao Exército brasileiro uma vantagem significativa em relação a outros exércitos: todos os seus integrantes se conhecem, um fator de coesão socioprofissional, além de a vivência em distantes rincões do país desses oficiais amalgamados numa cultura comum de formação ser um poderoso fator de unidade nacional.
Dito isso, podemos responder à questão: o que fez a turma de Artilharia de 1975 singular na sua formação e ao longo da carreira? Como ela assimilou ideias, valores e crenças em sua formação e como os seus integrantes os desenvolveram e aplicaram ao longo de suas carreiras? A resposta a essa questão engloba duas grandes áreas: a institucional e a da ambiência, ou seja, a dependência das normas e características da organização em que a turma se insere, no caso o Exército e a Arma de Artilharia, e do que se vive durante o período de formação na Academia Militar.
O Exército Brasileiro é uma força militar regular e permanente, baseada na hierarquia e na disciplina, com forte sentido de nacionalidade, de serviço ao Estado e de vínculo com a sociedade brasileira. Nele, a ascensão profissional acontece por uma meritocracia muito própria que independe de origem social, raça ou credo. A vida profissional e social no meio militar é pautada pela lealdade, dedicação ao serviço e respeito aos superiores, pares e subordinados. A grande maioria dos integrantes da turma de 1975 proveio da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas, e dos Colégios Militares espalhados pelo território nacional, nos quais se ambientaram ao Exército e nele enxergaram oportunidade de ascensão social ou de realização de vocação.
No final dos anos 60 e no início dos 70, as Forças Armadas, em particular o Exército, desfrutavam de grande prestígio, resultante do conceito positivo dos militares nos países ocidentais em decorrência da Segunda Guerra Mundial e da superposição da sua imagem com a do regime que se inaugurara em 1964 e promovia, ainda que sob viés autoritário, profundas reformas sociais, econômicas e políticas aprovadas pela população.
Conquanto a maioria dos alunos dos Colégios Militares se dirigisse à vida civil, valendo-se do excelente ensino ali proporcionado para vencer no vestibular e se encaixar no mercado de trabalho em ascensão e de pleno emprego, de uma maneira geral, o ingresso nas escolas militares de formação de oficiais envolveu cada vez mais e melhores alunos do ensino médio, contando com apoio das famílias. De filhos de oficiais generais e superiores, empresários e famílias abastadas até de praças das Forças Armadas e Auxiliares e de origem humilde, provieram jovens de todas as regiões do Brasil para integrar a Turma Sesquicentenário da Independência, assim batizada por ter o seu ingresso na AMAN se dado no 150º aniversário da Independência do Brasil, um acontecimento que a marcaria pela guarda de honra que formou na recepção dos restos mortais do Imperador Dom Pedro I trazidos definitivamente ao País pelo governo brasileiro. Pôde assim a Turma desfilar na parada de 7 de Setembro em São Paulo, a principal do país no ano de 1972, devido ao sepultamento naquela data de Dom Pedro I na Cripta Imperial do Monumento à Independência do Brasil.
Esses estímulos ao ingresso na Academia Militar, se, por um lado, aumentavam a procura pela carreira de oficial do Exército, por outro, incrementavam o nível de exigência de disciplina e de comportamento dos novos cadetes.
A recepção dos candidatos a cadete no mês de fevereiro de 1972 foi cuidadosamente preparada para informá-los das condições às quais estariam submetidos. Defronte ao contingente do Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ), postou-se o então 1º Tenente Athos Gabriel de Carvalho que se aproximou fumando (hábito popularíssimo à época). Sem proferir uma palavra, apagou o cigarro na sola do coturno, soltou o fumo restante no ar e guardou o filtro no bolso. Em seguida, recebeu a apresentação do contingente e o conduziu para o corredor do primeiro piso das alas do Conjunto Principal da Academia, onde os recém-chegados foram distribuídos pelas companhias do 1º ano do Curso Básico.
Foi a apresentação do rito de disciplina que os futuros Cadetes deviam aprender a obedecer: lema inscrito no frontispício do pátio onde tudo começa e termina na Academia: o curso, as refeições, a formatura diária. O Pátio Marechal Mascarenhas de Moraes, o P3M, local sagrado: proibido de se cruzar quando molhado; que imobilizava qualquer cadete na posição de sentido se uma tropa, não importa a distância, por ele marchasse; através do qual mais de dois cadetes só podiam passar em forma, conduzidos pelo mais antigo (sempre haveria um).

Depois da inesquecível Semana de Adaptação, em 26 de fevereiro, os candidatos que confirmaram sua vontade de ser cadetes ingressaram oficialmente pelo Portão Monumental da Academia, dando início ao curso. Nas semanas seguintes, os novos cadetes foram visitados em suas alas de alojamento pela Comissão do Código de Honra da Academia, composta por cadetes do 4o ano, sendo apresentados aos princípios que, voluntaria e espontaneamente, deviam professar: lealdade, probidade e honestidade. Começava a jornada.
A Turma Sesquicentenário da Independência viveu ao longo dos quatro anos de curso (1972-1975) duas fases bem caracterizadas da Academia Militar que se superpuseram aos dois anos de formação dos cadetes no Curso Básico e aos dois anos em cada Arma, Serviço ou Quadro. Entre 1971 e 1973, a Academia foi comandada pelo General-de-Brigada José Fragomeni e o seu Corpo de Cadetes pelo Coronel José Albano Leal; e, entre 1974 e 1976, pelo General-de-Brigada Túlio Chagas Nogueira, tendo por comandante do Corpo de Cadetes o Coronel Horta Lopes.
Os dois anos de Curso Básico (1972-1973) foram marcados pelo rigor da disciplina e da ordem unida; por seguidos e duros exercícios em campanha de guerra convencional; por uma instrução profissional de alta qualidade; e por intenso treinamento de patrulhas e guerra irregular, proporcionado, tanto no Curso Básico, como na Sessão de Instrução Especial (SIEsp). Os resultados foram inescapáveis.
A Turma desfilou nas paradas de 1972 em São Paulo e de 1973 em Brasília, exibindo uma ordem unida marcada pela sincronização dos movimentos, alinhamento e imobilidade, exigida até nos dois primeiros tempos do “à vontade” (só no 3º, o Cadete podia se mover livremente), provocando referências positivas de comandantes militares e causando admiração na população. Com isso, a AMAN dava conhecimento à sociedade e ao Exército da excelência da formação dos seus futuros oficiais. Mais do que uma exterioridade, esse padrão de disciplina e coesão se somaria, em breve, à notável melhoria da ordem unida que o Exército experimentava, com reflexos em sua operacionalidade e profissionalismo.
A instrução tática individual e os exercícios em campanha de guerra convencional – os Exercícios de Combinação das Armas e Serviços (ECAS), um de ofensiva e outro de defensiva, nos primeiro e segundo semestres, respectivamente, coroados pela Manobra Escolar no final do ano – proporcionavam aos cadetes uma experiência das operações militares, particularmente da Infantaria. Ela incluía desde as extenuantes marchas a pé, ocupação de zonas de reunião e ataques coordenados até a preparação de posições defensivas, com ocupação das tocas por duplas e preparação de campos e setores de tiro, passando pela transposição de curso d’água à viva força. Com essa experiência, os cadetes tinham uma ideia das peculiaridades e dificuldades do combate terrestre, independentemente do curso que mais tarde viessem a escolher.
Uma instrução profissional de alta qualidade permitiu a todos os cadetes conhecer os materiais de emprego militar e as diversas técnicas usadas nos pequenos escalões. A prioridade foi o armamento leve, de porte, portátil e coletivo das frações elementares, em uso ou recentemente adotado pelo Exército à época: o revólver Smith & Wesson .45, a pistola Browning .45, a metralhadora de mão Beretta 9 mm, o FAL e o FAP 7,62, e a veterana metralhadora Madsen, não só o seu manuseio, mas a manutenção de 1º e 2º escalões, consoante a preocupação de o oficial ter condições de fiscalizar e supervisionar a manutenção na tropa. Granadas de mão, nacionais e norte-americanas; de bocal, antipessoal e anticarro; e o lança-rojão 2.36 completavam o elenco de conhecimentos práticos de armamento. Construção de linhas de campanha, emprego de telefones, centrais telefônicas, equipamentos rádio e intenso uso de mensageiros compunham a instrução de Comunicações. A instrução de minas e armadilhas incluía desde o emprego de explosivos para demolições até o uso de diversos tipos de acionadores, mecânicos e de fortuna, tanto em sua preparação como neutralização. Ao final do Curso Básico, o cadete era um combatente perfeitamente capacitado no emprego dos equipamentos militares de pequeno escalão.
A patrulha praticamente se constituiu em um capítulo à parte da instrução do cadete. Nas semanas-verde do 2º ano do Curso Básico e no estágio de Guerra na Selva da SIESp de 1973, as patrulhas foram o tema principal, sempre em um ambiente de guerra irregular. Emboscadas, contra-emboscadas, incursões, resgates e destruições, em ambiente urbano e rural, eram as missões atribuídas pelos instrutores, alguns deles com experiências reais de combate, que, além de registrarem o desempenho dos cadetes no estágio, os avaliavam como futuros oficiais. A preparação para a guerra de patrulhas marcou essa geração de cadetes, formando comandantes de pequenos escalões com capacidade de liderança e uma maneira de pensar muito prática ao se desincumbirem de suas tarefas.
Como acontece com todas as turmas da AMAN nessa formação básica, os cadetes se depararam com uma necessidade simples e evidente, porém uma grande novidade para alguns: todo oficial do Exército deve nadar e montar a cavalo. As muitas horas de instrução no Parque Aquático e na Seção de Equitação da Academia haveriam de colocar todos em um patamar desejável dessas capacidades, revelando talentos inesperados e deixando em todos a admiração pela coragem e resiliência demonstradas pelos companheiros que superaram o total desconhecimento em relação a essas atividades.
Tudo isso produziu um resultado de mais longo alcance. Os integrantes da Turma, independente do curso que escolhessem no 3º ano, eram aptos ao comando de pequenas frações em operações de guerra irregular e conheciam o emprego do armamento e das táticas elementares da arma-base, fruto, não só da instrução do Curso Básico, como da experiência dos exercícios em campanha de que participaram, em sua maioria, como fuzileiros enquadrados pelos cadetes do Curso de Infantaria. Isso haveria de levar a um nível de comprometimento profissional entre eles como oficiais das Armas, Serviço e Quadro e uma compreensão do papel de todos em proveito da vitória no combate terrestre. Eram todos os fuzileiros, todos combatentes e companheiros. Estavam prontos para prosseguir nas suas vocações.
Mas o ano de 1973 não passaria sem dois acontecimentos dignos de nota na conjuntura que se vivia à época. Foram duas sessões cinematográficas, de caráter reservado, para as quais se reuniu todo o Corpo de Cadetes no cinema acadêmico, sem aviso prévio, à noite, imediatamente após o rancho do jantar. A primeira foi a projeção do filme “A Batalha de Argel” (Gillo Pontecorvo, 1966) , que descrevia a guerra da Argélia, particularmente, a luta em Argel marcada pela guerrilha urbana que rompeu os limites entre combatentes e não combatentes, desafiando as leis de guerra. A segunda foi a exibição do documentário egípcio sobre a transposição do Canal do Suez, na abertura da Guerra do Yom Kippur, em 6 de outubro de 1973. Ambas projeções tratavam de realidades distantes do Brasil, mas calaram fundo nos cadetes, pela gravidade dos acontecimentos descritos e suas consequências para as sociedades envolvidas.
Em 1974, a AMAN experimentou uma discreta porém efetiva mudança, mantendo os padrões de disciplina.
De maior visibilidade para os cadetes foi a alteração do corte de cabelo: dos quatro dedos acima da orelha e máquina zero para o corte meia cabeleira em máquina um. Porém, modificações mais importantes, ou pelo menos mais significativas, que refletiam a modernização do País, estavam acontecendo.
Os ECAS, como exercícios no terreno, foram substituídos pelos ECAS universitários, seminários constituídos por palestras, mesas-redondas, painéis trabalhos em grupo e apresentações de cadetes durante uma semana, para o que contribuíram convidados especialistas nos temas escolhidos.
Além da excelência do quadro de instrutores da Seção de Ensino “A” (História Militar e Geografia), incumbida da preparação dos simpósios, a AMAN contava com a atuação do Major do Quadro de Engenheiros Militares (QEM) Alcyone Fernandes de Almeida Junior – criador do sistema portátil de captação de imagens online no campo de batalha – que instalou um circuito de TV interligando o Cinema Acadêmico e as salas de aula onde cadetes realizavam os trabalhos em grupo. Isso em 1974, note-se bem. Décadas depois, seria difícil repetir o que foi realizado àquela época. Em 1974 não poderia haver temas melhores para os ECAS universitários do que Petróleo, o pivô da crise mundial de 1973, e a Revolução de 31 de Março de 1964.
A eventual presença do comandante da AMAN nas salas de aula do denominado ensino universitário sinalizava a importância que o comando emprestava à formação acadêmica dos oficiais. O amadurecimento dos cadetes favorecia a absorção dos conhecimentos das Ciências Humanas: Psicologia, Economia e Direito, com a proximidade do oficialato enfatizando a necessidade do Direito Militar, particularmente no estudo do Código Penal Militar (CPM) e do Código do Processo Penal Militar (CPPM) e dos procedimentos da sindicância e do inquérito, bem como a da boa redação, com ênfase nos documentos e registros da profissão e na fala em público, desenvolvidas essas capacidades pela Cadeira de Redação e Estilística. Em um horizonte mais amplo da formação dos oficiais, atuava também a Cadeira de Direito na vertente constitucional, estudando a carta em vigor e os princípios que a sustentavam. Os cadetes tinham conhecimento das excepcionalidades políticas do regime em vigor em relação aos princípios democráticos que assimilavam. A Cadeira de Economia completava essa percepção, com a apresentação das escolas de pensamento econômico. Dessa forma, os cadetes conheciam as vantagens da democracia e do capitalismo.
No horizonte profissional, a Seção de Ensino “A”, composta por oficiais superiores do Quadro de Estado-Maior da Ativa (QEMA), incumbida do ensino de História Militar e Geografia, cumpriu também o papel de estimular a leitura e o desenvolvimento de pensamento estratégico. As aulas sobre as grandes guerras mundiais, a evolução da doutrina militar e as principais campanhas militares da História eram de grande interesse. A cadeira de Geografia trouxe uma novidade fundamental para os cadetes: a Geopolítica, pela qual era possível compreender a integração nacional e a articulação do País no continente. Através da Seção de Ensino “A”, os cadetes foram informados que o Exército estava adotando uma nova doutrina, ofensiva, em função dos recentes conflitos mundiais, abandonando a defensiva.
Os cadetes que ingressaram no Curso de Artilharia em 1974 tinham diversas origens. Uma boa parte provinha de cidades onde existiam unidades da Arma ou eram filhos de oficiais de Artilharia. Havia um núcleo provindo do CMRJ, onde a forte liderança do Capitão Humberto Petrone, comandante da Bateria de Alunos, instilara um nítido sentido de tradição da Arma e até a experiência de tiro real com os obuseiros 75 mm de que a Bateria do colégio era dotada. No entanto, por certo, mais importante para o amálgama dessa turma de Artilharia foi o momento de modernização e dinamismo que a Arma vivia com o recebimento do obuseiro autopropulsado de 105 mm e o desenvolvimento de mísseis de artilharia antiaérea. Também os exemplos de correção de atitudes e vibração das turmas de Artilharia de 1972 e 1973 pesaram na escolha da Arma feita em 1974.
Os recém ingressos no Curso de Artilharia em 1974 encontraram um ambiente favorável ao seu desenvolvimento profissional, marcado por competência e respeito. As instruções de Linha de Fogo, Técnica de Tiro, Topografia e Material de Artilharia introduziram os cadetes nos mistérios da Arma, conduzidas por oficiais com profundo conhecimento dos assuntos e que preparavam meticulosamente as sessões de instrução.
Concorreu para a assimilação dos conteúdos uma prática inédita à época: as provas práticas que duravam todo um dia. Além de fazer a prova escrita, o cadete de Artilharia devia realizar os procedimentos de pontaria da bateria, medidas com o goniômetro-bússola e desmontagem e montagem dos mecanismos de culatra do obuseiro 105 mm e do canhão C-34 de 75 mm, sendo a Turma a última formada com conhecimento desse material ainda existente em unidades do Rio Grande do Sul e Mato Grosso.
Beneficiava-se a instrução no Curso de Artilharia da AMAM também da presença de oficiais oriundos do Grupo Escola de Artilharia, uma verdadeira fábrica de virtuoses da Arma, particularmente na Técnica de Tiro e Linha de Fogo. Esses oficiais não apenas ensinavam: eles compartilhavam experiências e transmitiam dicas de excelência e competência no exercício das funções-chave do sistema de Artilharia. Mostraram que a Central de Tiro é local de decisões táticas e técnicas com o enlace entre Técnica de Tiro, Topografia e Comunicações. Que a Bateria de Tiro é o reino do Comandante da Linha de Fogo (CLF) que a conduz com energia e minúcia, desde a verificação pessoal dos engates das peças até a vigilância permanente pelo olhar do feixe da bateria. Que a condução do tiro devia fazer valer cada granada, pela aplicação das regras de enquadramento, estudo do terreno e criterioso uso das comunicações.
Das intermináveis aulas técnicas nas salas Alfa e Bravo do Curso até os campos de Membeca e da Barragem, passando pelas oficinas práticas no Parque do Curso, os cadetes de Artilharia percorreram um caminho marcado por grande exigência. Era comum verem companheiros de outras armas voltarem ao Conjunto Principal mais cedo, enquanto eles lá chegavam praticamente no horário do jantar.
As instruções técnicas do Curso de Artilharia desenvolveram nos cadetes um gosto, e até orgulho, pela precisão na Topografia e na Técnica de Tiro que viam se materializar em um tiro real preciso no terreno. Mas, um componente novo, ou pelo menos um enfoque inédito, haveria de distinguir os artilheiros em 1975: o Combate e Serviço em Campanha.
Desde os anos 60, as realidades da guerra convencional não linear e o emprego da Artilharia na contraguerrilha enfatizavam as características da Arma como elemento de apoio ao combate estreitamente ligado às armas-base, a qual agora devia ser capaz de, eventualmente, defender-se com emprego de seu armamento orgânico. Essas condicionantes influíram decisivamente no comportamento dos novos artilheiros. O goniômetro-bússola passou a ser usado em perfil baixo para ocultamento do CLF e equipe; as guarnições passaram a pernoitar junto às peças, por vezes, entre as flechas; o tiro direto das peças passou a ser prioritário em cada posição com a preparação do cartão de alcance; o sarilho de fuzis das guarnições desapareceu, com os serventes portando as armas no corpo com as bandoleiras; e, principalmente, as peças não podiam ser deixadas nunca sem as guarnições, não importava a situação.
Capitão Rocha, o “Lorde Rocha”, na Técnica de Tiro e Linha de Fogo; Tenente Teófilo o “Jamegão” nas Comunicações e na Topografia; Tenente Moraes, o “Precipício” nas Comunicações; Tenente Reis, o “Canelinha”, no Material de Artilharia, foram os instrutores que pontificaram no Parque do Curso, ensinando os cadetes a serem artilheiros. Mas seria um oficial não muito presente nos tablados que teria uma influência determinante na formação dos artilheiros de 1975: o Capitão Câmara Sena, instrutor de Combate e Serviço em Campanha e depois S/3 do Curso.
Foi ele que na montagem, preparação e condução dos exercícios do Curso mostrou aos cadetes que a Artilharia era, essencialmente, uma arma combatente, levando ao máximo a conjunção entre suas capacidades técnicas e táticas. Dois exercícios por ele conduzidos marcaram para sempre a Turma de Artilharia de 1975: o famoso SC-36, em 1974, exercício-escola de Reconhecimento, Escolha e Ocupação de Posição (REOP) dentro de uma situação tática; e o exercício de Artilharia na Contraguerrilha, em 1975, quando ficou evidenciada a capacidade de uma bateria disposta em estrela realizar missões de tiro em 6400’’’[1], disparar em todas as direções contra alvos próximos e manter o perímetro defensivo da posição.

No SC-36, Câmara Sena encontrou a posição virtualmente impossível de ser ocupada em uma pequena ravina do outro lado do aqueduto que cruzava a Mata da Cascata na Área de Instrução Especial (AIEsp) da AMAN, desafiando o cadete na função de Comandante de Bateria a encontrá-la com o “A”[2] no bolso. O exercício de três dias de duração, no quadro de um movimento retrógrado com tiro real de sucessivas posições, foi ininterrupto, ensinando aos cadetes os limites do cansaço físico e sua influência no combate. Mais impactante foi a circunstância do exercício acontecer debaixo de chuva torrencial durante toda a sua duração, levando inclusive a segunda peça da bateria a cair da estrada da AIEsp dentro do Rio Alambari, quase arrastando a viatura tratora. A iniciativa e a determinação dos cadetes em desengatar a peça da viatura tratora para desobstruir a passagem e empurrar a braço estrada acima todas as viaturas da bateria até a posição onde as três peças remanescentes foram apontadas de madrugada debaixo de forte chuva mostraram aos oficiais que o exercício não precisava ser suspenso. O empenho dos cadetes na Linha de Fogo e na Turma Fio naquela madrugada foram inesquecíveis. Ao alvorecer, no horário previsto, as três peças abriram fogo. Além de cumprir a missão, a Turma conquistou o respeito dos instrutores do Curso.
A Turma de Artilharia de 1975 se singularizou não somente pelo desempenho nos exercícios em campanha no Curso, mas também por aspectos socioafetivos que lhe deram excepcional coesão e homogeneidade.

Não necessariamente o mais importante, o primeiro que aqui se elenca é o do apreço pelas tradições da Arma que se manifestava de várias formas. A mais evidente era o canto das canções: da Artilharia de Costa, desencadeada pelo inolvidável “CAC PTC”[3]: da Artilharia Antiaérea; da Artilharia Expedicionária e das compostas pelo cadete Rodrigues, o “Rodrigão”, que se tornaram em algumas das mais belas e cantadas pela Artilharia em todo o Brasil. A Canção “Soldados de Artilharia” tinha um sabor especial para Turma. Quando o grupamento da Turma atingia a entrada do pátio do Parque do Curso, mudava a cadência do passo ordinário para o passo lento do Boi de Botas, abria espaço para a quarta coluna e iniciava o canto entoado até o prédio do curso. A Turma de Artilharia de 1975 era a única da Academia que, eventualmente, cantava toda a Canção do Expedicionário em suas quatro estrofes, da entre-ala do Conjunto Principal até a entrada do Parque do Curso, em duas vozes. Na entre-ala, a cada término de jornada de instrução, ou no P3M, ao término de exercício em campanha, a Turma procedia o cerimonial do “Fora de Forma”, uma exaltação à Arma, ao Exército e ao País executada de corpo e alma a plenos pulmões.

As tradições da Artilharia Hipomóvel, uma verdadeira escola, foram mantidas religiosamente com a inspeção da limpeza dos tubos após os exercícios com o lenço branco do CLF, com a proibição de saltar as flechas da peça e com a preservação da equitação através da organização de concursos hípicos no âmbito do Curso.
A iniciativa da Turma em contribuir para a evolução e o prestígio da Arma ficou bem caracterizada com a criação da Revista ART, destinada à publicação de artigos profissionais. O desenho da capa da revista acabou se tornando um símbolo informal da Turma e do Curso de Artilharia da AMAN.
A revista foi uma das iniciativas da Associação Atlética Grupo de Artilharia (AAGA), o grêmio dos cadetes, mas outras foram cometidas, as principais por ocasião das comemorações do Dia da Artilharia. O envolvimento dos cadetes com a organização do baile, o churrasco, a recepção das famílias e a demonstração de tiro foi muito além do cumprimento de tarefas, tornando-se fator de congraçamento não só entre os cadetes, mas também com os oficiais, cujas famílias vieram se somar ao trabalho do Curso para o brilho da festa. A cordialidade dos oficiais e dos seus familiares nessas oportunidades funcionou como espelhamento dos cadetes em seus instrutores, não só como profissionais, mas como chefes de família que todo cadete almejava ser.
Forte competidora na natação e no pólo aquático durante as Olimpíadas Acadêmicas, a Artilharia disputou ponto a ponto com a Cavalaria o 2º lugar da Olimpíada de 1975 e carrega com orgulho duas vitórias em jogos amistosos de Bola Militar com seus companheiros de Cavalaria: disputa nas quais os cadetes de Artilharia tinham que designar dois jogadores para marcar um instrutor de Cavalaria a quem muito admiravam: o inesquecível Tenente Heleno.
Além de ser a primeira Arma a entrar em forma no P3M, tanto para o rancho como para as formaturas diárias, uma tradição de longa data, a Turma de Artilharia de 1975 retomou outra prática, fechando o círculo do apelo da Comissão do Código de Honra feito quatro anos antes. A Turma, na pessoa de seu presidente da AAGA, avisou os seus instrutores que estava pronta para realizar as provas do Curso nos apartamentos de sua ala sem a presença de oficiais. E assumiu integralmente essa responsabilidade, bem como difíceis decisões dela decorrentes que foram tomadas no âmbito da Turma sem a participação dos oficiais.

O presente desfilar de feitos e realizações não tem o objetivo de apresentar a Turma de Artilharia de 1975 como melhor do que nenhuma outra, mas tão somente oferecer a memória de um grupo que se insere no inestimável património imaterial da Arma de Artilharia e do Exército Brasileiro, contribuindo assim para a sua continuidade e enriquecimento.
Em um 12 de dezembro se completou a jornada acadêmica da Turma de Artilharia de 1975. Cientes de que tinham uma missão a cumprir, os seus integrantes se prepararam para os desafios que os esperavam nos corpos de tropa. Confiantes em sua formação e munidos com os “papiros” dos conhecimentos que desenvolveram na Academia, muitos dos aspirantes adquiriram coleções de slides da Instrução Preparatória para o Tiro (IPT) para implantarem aquele avanço da instrução na tropa. Alguns de Artilharia tentaram fazer uma coleção equivalente do REOP, mas faltaram-lhes condições técnicas.
De tudo que levaram para a nova vida, seu vigor, sua juventude, seus ideais e suas companheiras, recém-casados muitos deles, o mais importante foi a convicção no papel que deveriam cumprir. Apenas dois anos depois, em 1977, concomitantemente com os seus afazeres nas unidades, os integrantes da Turma servindo pelo Brasil afora redigiram todas as atividades das diversas qualificações militares que deviam formar, criando a massa crítica que haveria de consubstanciar os programas-padrão de instrução do Exército.
Trouxeram para a tropa definitivamente a IPT do FAL, ajudaram a introduzir o Teste de Aptidão Física (TAF), familiarizaram as unidades de Artilharia com as operações especiais de defesa interna; dinamizaram e sistematizaram o REOP e contribuíram para deixar claro que a Artilharia era uma arma combatente, cujo tiro não era uma demonstração, mas devia estar inserido em uma situação tática. E que as velhas tradições da Arma estavam de pé.
Dez anos depois, em 1985, encontraram-se quase todos, pela última vez, no Curso de Aperfeiçoamento para Capitães, na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (ESAO), no Rio de Janeiro, quando deram novas demonstrações de companheirismo e camaradagem, tendo àquela altura acumulado não poucos aderentes de outras turmas que se sentiam familiarizados com a maneira de ser da “Juventude Agressiva do Exército”, a “JAE”, como era brincalhonamente apelidada a Turma de Artilharia de 1975.
Com o passar dos anos, foi ficando claro para os seus integrantes que eles eram produto do melhor que o País e o Exército poderia lhes oferecer e que, de alguma forma, cabia-lhes retribuir. E o fizeram, com disciplina e profissionalismo, para completarem suas carreiras em um exército melhor do que entraram, mas animados dos mesmos valores, princípios e compromissos.
A essa altura não eram mais a JAE, mas isso é outra história.
- Historiador, sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Coronel Veterano da Turma de Artilharia de 1975, foi Comandante da 2ª Bateria de Cadetes, Chefe da Seção de Ensino “A” e Coordenador da Modernização do Ensino da Academia Militar das Agulhas Negras.
[1] 360º.
[2] O “A” no bolso é a expressão que significa ter o Comandante de Bateria calculado antecipadamente ao reconhecimento o sítio mínimo (ângulo vertical) para a elevação à frente da posição de bateria que possibilite seu tiro bater imediatamente à frente da linha de contato da arma-base, garantindo assim a efetividade do apoio de fogo proporcionado.
[3] Comando de voz emitido pelo Sargento-de-Dia da Bateria de Cadetes: “Canção da Artilharia de Costa, pela testa começar”.

Sensacional! Muito orgulho do EB!
Nesta turma havia também um “Rodrigão”! Apelido que, salvo engano, também foi atribuído ao meu pai no decorrer da carreira.
Parabéns pelo belo relato sobre a turma de 1975!